[almö] As revoluções do Automotive Designer Raysner Figueira

[almö] As revoluções do Automotive Designer Raysner Figueira

Esse post foi escrito pelo Rafael Toledo do blog almö. Se curtiu, dá uma olhada lá que tem várias matérias sobre design!


Quando Raysner Figueira tinha 3 anos, seu pai o levava pra varanda da casa de sua avó e lhe ensinava o nome dos carros que passavam na rua. Raysner desenhava desde a época que sua memória consegue alcançar. Ele explorava não somente o desenho dos automóveis, mas também a sua mecânica: o que estava dentro dos carros também o interessava. Essa sua paixão pelo desenho preocupou os pais em determinado momento. Eles pensavam: por que ele fica desenhando o dia todo e não sai pra brincar? Alguns anos depois, seus pais descobriram que a brincadeira do filho era o desenho. E desenhar representaria o propósito de vida de Raysner.

Parece óbvio que Raysner tenha sido estagiário do departamento de design da Volkswagen no ano de 2017. Ele venceu em 2016 o concorridíssimo concurso Talento Volkswagen, cuja premiação é justamente o estágio por um ano na montadora alemã. Porém, a trajetória do capixaba não foi tão simples assim. Na adolescência, Raysner se apaixonou por tocar bateria e os desenhos já não eram mais tão frequentes. Quando foi decidir o curso de graduação, pensou em sua empregabilidade – como 99,9% dos brasileiros – e o design ficou mais distante. Durante 3 anos e meio, Raysner cursou Engenharia. Entretanto, foi numa viagem acompanhado de sua noiva que ele teve um insight em frente à uma universidade de design de Boston: Design! Era isso que faria sua vida profissional ter sentido.

Chegando ao Brasil, ele fez uma revolução na sua vida e decidiu estudar design. Anos depois, mais uma decisão revolucionaria a vida de Raysner: ele se mudou para São Paulo e começou a cursar Design de Produtos e Serviços no Istituto Europeo di Design (IED). Em sua trajetória no IED – faculdade que Raysner descreve como a sua verdadeira casa em São Paulo, pois sempre esteve envolvido em muitas atividades por lá – depois de ter vencido em segundo lugar um concurso da Renault em 2015, Raysner percebeu seu potencial para a área de Automotive Design – sim, aquele potencial que ele sempre teve desde o início da sua vida – e graças às conversas sinceras com o seu mentor Fernando Morita, o brilhante designer que coordena a área de Automotive Design do IED, ele descobriu que somente conseguiria realizar seu sonho de tornar-se designer automotivo se tivesse foco. Foi aí que promoveu mais uma revolução: largou o emprego como light designer, e mergulhou de cabeça em um dos concursos mais concorridos do país.

O que me inspira no Raysner é que ele não é somente um designer focado nas formas dos automóveis: ele é alguém que pensa o design de transportes em sua íntegra e sua visão está sempre orientada ao futuro – como poderemos conferir na entrevista que ele deu para a almö contando sobre o seu projeto, o Volkswagen Gaia.

Durante nosso bate papo, conversamos muito sobre a Volkswagen e sua linguagem de design. Para Raysner, a Volkswagen é uma marca que tem uma filosofia de design clara, que é pautada pela solidez, pela qualidade e pela atemporalidade. E essa filosofia sempre foi muito consistente ao longo do tempo. É realmente impressionante: quando analisamos a evolução de automóveis icônicos, como o Golf e o Polo é possível visualizar que a marca alemã manteve uma consistência grande em sua filosofia de design. Muitos elementos são consistentes nessa evolução, como a horizontalidade das linhas frontais. A filosofia de design da Volks é atemporal: não é um design de ruptura, mas sim um design evolutivo, que mantém claramente a mesma filosofia por décadas.

Abaixo, segue um trecho da entrevista que a almö fez com Raysner sobre o Volkswagen Gaia e sobre as dicas do designer para quem quer se tornar um Automotive Designer:

Conte-nos sobre a proposta do Volkswagen Gaia e o processo de desenvolvimento do conceito.

O projeto Volkswagen Gaia começou com um briefing muito claro. A Volkswagen queria um superesportivo, o briefing era Blue Racing, corrida ecológica. A gente foi guiado por eles no primeiro feedback que tivemos na fábrica, o que eles realmente queriam era que a gente explorasse mais a área de competição, da história das corridas. Aí logo quando eu comecei a pesquisar veio a pergunta: o que é uma corrida? Uma corrida é uma competição, mas o objetivo é chegar em primeiro? O que é a Fórmula 1 hoje, rola muita grana por trás, só para chegar em primeiro, segundo? Não! Também é um laboratório de tecnologia muito grande, que os caras testam tudo ali na hora e na hora eles conseguem ver se uma tecnologia é melhor do que a outra. Aí eu comecei a ver as relações da história da humanidade com a competição: como a humanidade se saí com competição olhando para trás? E aí a gente vê momentos não muito bons que são as guerras, que são, nada mais nada menos, que competições entre países. Saber quem é o melhor. E a gente tem a Guerra Fria. São momentos muito ruins, porém, que por outro lado tiveram um nível de desenvolvimento de tecnologia muito grande, porque teve motivação. Ou você faz ou você morre. Não consigo ver motivação maior do que uma guerra para você fazer uma coisa. Com esse embasamento eu fui inspirado no meu projeto, que através da competição de 12 marcas – coloquei 12, mas é um número aleatório – os maiores fabricantes de carros – no futuro marcas de tecnologia e de carro acho que vão ser não a mesma coisa, mas estarão muito próximas. Então marcas grandes de tecnologia, usando a competição, uma corrida, que no caso é o tema do concurso – eu não podia fugir disso – nessa corrida eles estariam livres para testar tudo, principalmente soluções para meio-ambiente, energia renovável e etc. É claro, no concurso existem vários tópicos para a gente atender, linguagem de design, porque o concurso é de design e no final eles querem saber se você sabe de design, mas ao mesmo tempo eu poderia brincar um pouco e eu poderia jogar uma tecnologia ainda desconhecida, mas provocando, olha pode ser isso…A propulsão do meu carro ficaria por conta de dois motores elétricos, um em cada eixo, uma turbina localizada na frente do eixo dianteiro ficaria responsável em gerar a energia necessária, ela suga o ar, gera energia, e direciona o ar pra um filtro localizado na parte central do carro que através de tecnologia com grafeno – existem pesquisas feitas com filtro de grafeno que pode se tornar extremamente mais eficiente do que qualquer outro filtro – ele filtra o ar, e o retorna para a natureza. Basicamente, a base do meu projeto é essa.

Quais dicas você dá para as pessoas que são apaixonados por design automotivo e querem participar do concurso de design da Volkswagen e sonham em entrar nessa área, que conselhos você daria para essas pessoas se desenvolverem?

Mais natural assim, eu falar o que aconteceu comigo. Quando eu comecei a fazer o projeto para ganhar o concurso, eu estava com um monte de outros projetos rolando, tinha TCC, tinha muitas coisas, eu estava estagiando numa fábrica de luminárias, totalmente diferente do que eu queria, e aí foi que veio o insight. Um professor, o Fernando Morita, me disse: “(…) cara ou você foca ou você desiste, é melhor não fazer”. Foi um balde de água fria, mas aí eu foquei e é incrível quando você foca, tudo sai muito mais bem-feito, é muito lógico isso. O que eu indicaria para as pessoas é foco, e só falar foco parece simples, mas na verdade não é. O mais importante e o mais difícil de ter foco é dizer não. Mais importante do que dizer sim para uma coisa só, é você saber dizer não para todo o resto, tudo o que está te atrapalhando a alcançar o seu objetivo. A faculdade me ajudou muito. Todos os professores e as pessoas com quem eu convivi. Então primeiramente busque o foco no que você almeja e segundo procure pessoas que te ajudem a alcançar esse foco.

Ao final de nosso bate papo, pedi ao Raysner para fazer um sketch que simbolize a filosofia de design da Volks. Raysner, fez um sketch incrível da primeira geração do Golf, que delineou os princípios da filosofia de design da marca alemã.

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Também compartilho o sketch que Raysner fez do novo Volkswagen Virtus, que foi exibido na coletiva internacional de lançamento do carro.

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Raysner já é uma referência para todos os alunos de design que sonham em ser Automotive Designers no IED e, certamente, o designer se tornará uma referência brasileira sobre o tema. ö

Para conhecer melhor o trabalho de Raysner e ver as imagens a seguir em alta resolução é só entrar em: www.behance.net/raysnerfigueira