Entrevista com Fábio Garcia da BR118

Mais uma das nossas entrevistas e essa me encheu de orgulho! Conheça um pouquinho da história do Fábio e da BR118, a única fabricante de miniaturas 1:18 do Brasil. A entrevista é curta mas dá para sentir o tamanho da dedicação e do amor que eles colocam em cada projeto!

E os carrinhos são muito disputados!! Um lote inteiro de 40 miniaturas esgotou em 16 minutos!! Se quiser conhecer mais e ficar de olho nos trabalhos da BR118, só clicar aqui!

Para quem não conhece, quem é Fábio Garcia?

Sou um apaixonado por carros, um empreendedor que procura equilibrar seu tempo sendo Designer de Produto, gestor de finanças, pesquisador de materiais e tecnologias ou sendo o que for preciso para manter viável o objetivo de fabricar miniaturas de carros no Brasil.

Como começou sua história com carros? 

Não consigo me lembrar da minha vida sem o envolvimento com carros, talvez tenha começado quando fui com meu pai a uma oficina mecânica pela primeira vez. Eu chegava em casa e montava carros com o lego tentando recriar aquilo que eu via. Assistia as corridas do Ayrton Senna de McLaren, sempre acordava de madrugada pra ver os 2 e isso também me ajudou a ligar a imagem do automóvel às pessoas. Sempre vi os carros como se fossem seres de personalidades distintas. Mais tarde, quando estava decidindo minha profissão, vi um recorte de jornal com uma história de “Concurso Volkswagen de Design” no qual concorriam a estágio na montadora os estudantes do último ano de Design de Produto. Sob protestos da família eu larguei a faculdade de Processamento de Dados e entrei na UNESP onde fiz o tal curso só pra participar do concurso. Lá também conheci amigos que sempre me incentivaram e isso amadureceu meus objetivos. Depois de muito sacrifício pessoal consegui o sonhado Estágio onde aprendi sobre escultura muito mais do que imaginava. Na época, o Veiga comandava o Design e gentilmente permitiu que eu fizesse um modelo conceito escala 1:4 em clay. Tive muito apoio técnico dos Modeladores e Designers. Lá eu também tive um choque de realidade descobrindo que aquela profissão era mesmo maravilhosa mas o meu perfil pessoal e profissional pediam um novo sonho.

O que é a BR118? De onde surgiu a ideia de começar sua própria fábrica de miniaturas?

BR118 é a primeira e única fabricante de miniaturas de carros na escala 1:18 do Brasil. É uma proposta para atender a um nicho de mercado de miniaturas especiais e exclusivas com produção limitada e artesanal.  A ideia não surgiu de repente. Nasceu aos poucos durante a faculdade com amigos e depois foi pra gaveta por que seguimos nossas carreiras.  Quando o programa de estágio da VW terminou, eu não tinha mais dúvida de que seria fabricante de miniaturas, só faltava entender melhor como organizar isso e transformar a ideia em um negócio com investimento praticamente zero.

Como são feitas as miniaturas? Quais as etapas de cada projeto? Quanto tempo leva para fabricar cada miniatura?

As miniaturas são fabricadas com compósitos, plásticos e borrachas de engenharia, mas o material é conhecido pelos colecionadores simplesmente como “resina”. O processo de fabricação é 100% artesanal, porém obedece uma sequência de processos previstos em um projeto.  A primeira etapa para a criação da miniatura é sair a campo, achar um bom exemplar do carro escolhido, tirar o máximo de medidas e fotos. Se você vai modelar o carro você também vai precisar sentir com as mãos aquilo que não pode ser medido com a trena ou paquímetro. Colar alguns tapes também ajuda na percepção dos volumes. Precisa estudar como os modeladores da época criaram aquela superfície. Apesar da possibilidade de se scanear um carro, nós ainda não usamos o recurso apenas por uma questão de custo, mas em breve faremos alguns testes.  Com todos os dados em mãos nós geramos desenhos técnicos na escala, criamos chapelonas e ferramentas para a construção do modelo se ele for feito à mão como o nosso Gol GTI por exemplo. Se for modelagem matemática, como o projeto do GM Tigra, o processo é mais rápido, porém exige a mesma destreza do modelador.  É preciso também gerar sketches para que o produto carro se transforme no produto miniatura. Você tem que decidir quantas peças seu projeto terá, precisa conhecer as limitações dos moldes, dos materiais e da produção e assim resolver o problema do projeto. Aí nasce um protótipo que tem todas as peças e dimensões do produto final. Ele é então aprovado e desmontado para a geração dos moldes.  Por último, são projetados os moldes de acordo com a meta de produção daquela série e então saem os primeiros tryouts, que são os pré-series. Eles servem para que possíveis falhas orientem os ajustes nos moldes para a fabricação dos modelos definitivos. O último projeto que fizemos – o Voyage Sport 1994 – levou 55 dias para cumprir todas estas etapas até os moldes ficarem prontos para a produção. 

Como vocês decidem quais carros vão ser feitos? Os clientes escolhem as características dos carros ou são todos padronizados como as miniaturas “normais”?

Sendo um negócio, precisamos fabricar aquilo que vende. Por isso, é no contato com clientes que vamos definindo quais carros tem prioridade.  Nosso gosto pessoal geralmente fica em segundo plano. Apesar de nosso portfólio ser dominado por uma marca, não significa que temos preferência por ela. Acredito que futuramente com o amadurecimento do negócio, fabricaremos não só os carros mais vendidos mas teremos também espaço para surpreender o público com propostas de carros em que hoje ainda não podemos arriscar investir. Nosso negócio é tão orientado pelo público que a produção foi 100% personalizada até o ano passado - fazíamos exatamente o carro do cliente.  Hoje decidimos fabricar lotes de carros padronizados, numerados e assim ganhar produtividade.  Deixamos de personalizar as peças para ter condições de aprimorar nossos processos de produção e diminuir o desperdício de tempo e insumos. Mesmo seguindo um padrão, nossos carros são especiais por que são feitos à mão no Brasil e em número muito pequeno de peças. Além disso passamos a criar um certificado que acompanha os carros e conta o que aquele carro representa no atual momento da BR118.  Fazemos questão de compartilhar com o proprietário quantos dias a fabricação daquela miniatura levou em cada parte do processo, isso a torna única e o colecionador além de ter um exemplar da história da indústria automotiva nacional, também tem em mãos o registro do momento na história de nossa própria marca.

Quem são suas principais referências na fabricação de miniaturas e design em geral?

Sou fã dos fabricantes chineses de miniaturas em resina.  Eles são nossas referências por que simplesmente dominam o mercado e utilizam a mesma tecnologia que a gente.  Nosso foco de mercado, porém está nos nichos que eles não têm interesse em atender. No dia a dia, criei meus métodos de projeto e disciplina baseado no que vi e aprendi quando trabalhei no Estúdio de Design e Package da Volkswagen.  O alto nível profissional e humano que vi ali foi uma experiência que jamais vou esquecer e vai sempre me influenciar. Apesar de a gente não criar veículos, eu acredito que toda miniatura feita à mão é uma interpretação inédita, por que é a sua visão do carro, da superfície e dos detalhes que estão na miniatura e não só números definindo as dimensões.  Você pode comparar miniaturas do mesmo carro de marcas diferentes e ver que elas não são iguais, por que as visões dos designers destas miniaturas são singulares.  Assim acredito que minha maior influência na modelagem dos carros veio também da montadora por conta da atenção especial à escultura e não só aos detalhes gráficos dos carros.  Se fosse para citar um nome, eu citaria João Augusto Amaral Gurgel pela figura de empreendedor.  Ele representa inovação, raça e muita fé no taco.

Como sempre, a última pergunta é um pouco estranha, mas é sempre interessante ver as diferentes respostas: se você pudesse colocar um outdoor em qualquer lugar, com qualquer coisa nele, onde você colocaria e o que teria?

Se eu pudesse colocar um outdoor em frente às faculdades, aos cursos técnicos e profissionalizantes, eu escreveria que você vai precisar de um pouco de tecnologia, de um pouco de conhecimento, de um pouco de cultura, um pouco das condições favoráveis e também um pouco de acesso a ferramentas, mas não vai conseguir nada do que deseja se não contar com 100% do seu entusiasmo.  Este item é o único combustível obrigatório pra conquista de algo que você deseja.  Tem que se divertir com o trabalho e amar o que faz.  O resto são apenas ferramentas e elas nunca precisarão ser as melhores disponíveis e, mesmo que fossem, não conseguiriam suprir a falta de entusiasmo.